domingo, 15 de abril de 2007

Realidade

- Vamos logo!
Ela sabia o que estava sentindo, era medo, e sabia também que não desejava ir, mas nada fazia para impedi-lo, nada podia fazer.
Ele, tateava os cantos e curvas com uma bengala de vidro, e a conduzia para dentro da livraria. Ali havia poucas pessoas e nenhuma parecia perceber ambos. Ela sentia seu desespero aumentando gradualmente, mas por fora, sua lividez era acolhedora, não mandava mais em nenhum músculo, nem conseguia pensar no que fazer na presença daquele Homem.
O ambiente da livraria mudava aos poucos de claro e inspirador para algo sinistro e escuro. Num gesto lento, porém seguro, o Homem levantou um tapete vermelho e em seguida abriu uma porta pequena, de carvalho, com fechaduras muito antigas. Com um gesto único induziu-a a descer a frágil escada que mal se percebia.
Quando finalmente os dois estavam debaixo da livraria ela pôde enfim reparar nas vestes do Homem. Começando pelos pés viu que possuía velhas botas, pretas e muito desgastadas. Uma calça de linho grosso e camisa do mesmo tecido igualmente preto e por fim um casaco roxo que lhe cobria até os joelhos. Seu rosto quase se perdia por trás de uns óculos escuros e possuía cabelos longos, ondulados e negros que lhe caíam sobre o resto da face. Tudo fora percebido rapidamente pois ele andava em sua direção, e depressa. Ao resto do tempo que lhe restara, criava coragem e percebia o ambiente em volta, ou pelo menos tentava. Era difícil distinguir se aquilo era uma cama ou uma mesa. Tudo muito mal iluminado por luzes bruxuleantes que se não fosse por tal situação, a confortariam profundamente. E ao contrário do que pensava que fossem tais porões, este era alto e amplo, mas que de alguma maneira lhe causavam um certo asco.
Finalmente ele a alcançara e mais uma vez ao tocar seu braço ela perdera todos os movimentos e sendo assim era conduzida a um dos cantos que lhe parecia ser o mais aquecido e deitou-a em um sofá estranhamente aconchegante. Por ali havia baldes cheias de argila e água e ao centro uma grande peça de mármore. Depositou sua bengala em um cabideiro mais além e novamente seguia em sua direção. Despia-a calma e cuidadosamente, até mesmo o grampo que prendia seus cabelos fora retirado, os deixando livres e sedosos sobre seus ombros e seios. Toda sua roupa fora depositada junto à bengala no cabide e agora ela sentia mãos firmes a tocarem.
Por muito tempo foi a única coisa que sentiu: as mãos do cego a perceber-lhe a pele. Agora ele ajeitava sua postura e sobre a peça de mármore modelava o corpo de tão bela mulher. Ela simplesmente se conservou ali. E essa mesma cena se repetia, dia após dia. Dela eram geradas belas esculturas e grandes sentimentos. O asco ou qualquer outro sentimento ruim desaparecia com o tempo. E assim foram se seguindo as semanas.
Houve uma tarde que por curiosidade forçou a porta que dava para a livraria, que surpreendentemente estava aberta. Arregalou os olhos e saiu. Atravessou a mesma livraria de quatro semanas atrás e passou três dias penosos em seu pequeno apartamento. A melancolia, trazia mais melancolia e na manhã do quarto dia, quando sentia que finalmente iria enlouquecer, voltou em direção à livraria, levantou o tapete vermelho e essa ação trouxe-lhe lágrimas. E assim foram os restos dos dias de sua curta vida. Sem falar, calada, assim como o homem que a possuía. Sem outros sentimentos senão aqueles que lhe traziam mais lágrimas.
E embaixo do tapete, naquele dia, havia apenas assoalho. Nada mais do que a continuação de longas toras de madeira que revestiam todo o chão daquela loja de esquina.
Abril/2004

3 comentários:

Elka Waideman disse...

Esse conto escrevi aos catorze anos e é engraçado o quanto ele emociona minha mãe. Pelo o que ela me disse, acho que é porque então, ela não sabia que eu tinha asas.

Anônimo disse...

Elka, os parentes, sobretudo os mais próximos e as namoradas, namorados e esposas são os organismos mais suscetíveis à Síndromde de Zuckerman, ainda mais quando o autor dá uma deixa dessas...rs... O texto é bom, precisa só, talvez, atenção com algumas arestas que podem ser tiradas, várias revisões são sempre bem vindas.
beijo
juliano

Elka Waideman disse...

Ju, entendi sim o que você disse.
mas afora os erros de português que ele possa ter (e me ajude a achá-los, se houver), não pretendo mexer nele.
é um conto que quero preservar com a cara dos meus catorze anos.
me entende?
graaande beijo!