quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Birra de criança

Conheço esse cansaço
É aquele me chega daqui meia hora
É aquele que dá vontade de abandonar:
A caneta
Os braços
As pálpebras.

É aquele que dá em criança
Que esfrega os olhos
Pra mostrar o sono
Fazendo birra

É a criança estúpida de mim
E acho que ela:
Não gosta de química
Quando nela passa horas
Não gosta tanto assim de ler
Quando saem os livros
E entram as fórmulas.

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Alma diluída

Essa chuva que derrete tudo

Derrete o olho no rosto
que desce a tarde a olhar

Derrete o coração dos amantes
que sem piqueniques e bicicletas
não podem se encontrar

Nunca me acostumei com água caindo do céu
E nunca ninguém entendeu essa minha estranheza
- Eu acho que minhas palavras também liquefazem-se

E os sonhos derretidos
(a parar no sofá
e pensar no estar-aqui)
se tornam assim
mais maleáveis
mais possíveis

Tornam-se quase reais
se as gotas caem
como saliva tua
nos meus vãos
ou preenchem
o vazio das minhas mãos

E amanhã
ao sol nascente
ao calor crescente
a água ascendente
tudo vai se evaporar

E apesar desse modo
caber em todos os cantos,
os sonhos só parecerão me escapar
e gasosos ficarão meus encantos
e mais limpo ficará meu olhar.

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Dias

Há dias que sou nula
Não amo ninguém
Deixo todos morrerem se dependerem de mim

E há dias que morreria por tantos
Que muito me querem mal
Morreria por poucos se preciso fosse
Morreria por algum deus

Hoje sou ímpar
E amo você
Minha mãe e meus irmãos
Minha gata
O menino que me ajudou a catar as coisas do estojo no pátio
E o sol
Nem deus nenhum nem a vida
Hoje eu não mataria.

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Lençol amargo

Quando não devias dizê-las, pressa demais: dito.
Quando não devias fazê-las, raiva demais: feito.

Explica-me então, enquanto faço o arroz.
Mas não me resta paciência para ouvir mentiras. As mentiras têm estragado a comida com seu tempero amargo. Já bastam os pernilongos que zunindo vão nos lembrando, antes de nos deixar dormir, o que nos falta fazer para sermos felizes. E é no meio do zum-zum-zum que te lembro de pagar as contas. Que me lembras de depilar as pernas, que tanto te incomodam nesse nosso lençol de cetim, e dizer para o poeta que ele estava errado quanto ao amor.
(e te olho de novo)

Ele estaria certo?
Quando se está certo ainda é arrogância. É sim.

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Monocromático

A mulher acordou cedo.
Nem sol nem frio.
Chuva quente de mormaço.
Coração molhado.
Estômago vazio.

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Velhos noviços

Quando os vi juntos pela primeira vez
não eram jovens
Ainda os vejo e não estão mais jovens
E estão juntos
envelhecem juntos
Andam com o braço dela enfiado

no buraco do braço-barriga dele
Caminham devagar

Ele se irritam
Se adoram
Se divertem
E passam os anos
Passam os medos
Amassam as mãos, as juntas, a cara.

Ainda serão daqueles velhinhos que, juntos e devagar,
vão pela faixa comprar vitaminas na farmácia
Ainda serão o que não foram primeiro
(deles para outros e deles para eles mesmos)
Mas já se sabe
Pelos olhos
Pelos nomes
Por hoje e ontem
Que são felizes.

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Nosso laço

O que você disse da minha poesia, fez dela meu caminho até você. Escreveria a sangue se acabasse a tinta.
Se o caminho fosse de pedra, nos versos teria a força.
E se o caminho fosse longo, eu gritaria as palavras.
Mas se se perdesse no caminho, se me perdesse na memória, eu perderia a palavra no tropel das idéias.
E sempre me faltaria um final.

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Quase eu mesma

Nem todos entendem o que escrevo.
Lêem o que lêem.

É quase tudo tão intimista...
Quase todos os gostos e cheiros vividos.
Quase!

Não me confundam com a pena.
Não me confundam com a rima...

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Cheiro de poesia

Vamos para a esquerda, Carlos! E traga tua rosa.
Vamos pelo caminho livre de Cecília, despindo as mulheres de Picasso, calçando os sapatos para subir nos campos mais verdes e conhecer, enfim, aquele deus do guardador do rebanho, do pai, do menino.
Amanhã! Vamos amanhã!
Que hoje só tenho vontade e tempo de ser tua, boy!
Serei dama na noite. De luar abrirei o corpo e as páginas. O teu perfume me abrirá os poros e me trará de volta minhas palavras.
Então no dia seguinte, te deixo os ramos e vou!
Vou com teu perfume no corpo e a poesia na alma.

terça-feira, 18 de setembro de 2007

Boba e brilhante

Eu estava indo bem sem você
Agora é levantar e gritar
Sentar e chorar
Deitar e lembrar
E escrevendo aos calos

Eu estava indo lento sem você
Agora voltei a correr
Tropeçar
Doer
Topar o dedão
Quebrar a cabeça
E bater a cara nas portas sem abrir

Eu estava indo
Apenas indo sem você
Agora rumo
Agora sou mais feliz
Mais uma vez

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Plataforma 24

Frases doces para contar
E perguntas para saber mais
E ainda assim tão pouco...

Saudade farta e fatigada de idas
Uma vez no ponto Madalena (se não falho)
Outra na plataforma 24.

Senti que foi perfeito
Sem exageros!
Mas faltou sentir, mesmo que só ilusão
A eternidade...

Nem no tempo houve espaço pra nós...

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

TV desligada

Na minha TV desligada
Vejo refletidas
Deitada em minha cama
As flores judias da janela do quarto
E beija-flores a procura de sapatos

Às vezes, na sombra, vejo a gata negra
A procura de carinho

A guerra que se trava é a dos ramos que competem pela luz
As armas, os ferrões das abelhas zombeteiras

Através da TV desligada vejo o mundo
Mas um mundo inverso do mundo
Um que se passa
Apenas na janela do meu quarto
Não pela porta de saída
Nem pelos cabos e linhas

Um mundo tão meu quanto possa ser:
quase verde, quase frágil.

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

Para meu avô

A dor nasceu vermelha
Sangrou no peito
E nos olhos sangrava

A lágrima cristalina
Ardeu nas pálpebras
No rosto
No estômago
(não quero comer agora...)

Há pouco tempo que és José,
Foi mais tempo semente de cor.

Era Colorau
Casado com a Neg(r)a
Pai dos Amarelos
(um mais que os outros)
Avô das Brancas

Mais colorau agora que antes
Volta ao pó na terra
- Plantem uma rosa onde jaz José, será rosa do amor.

E o céu fica vermelho
Refletido nos meus olhos, agora vermelhos
- Sua veia que rompeu!
Verteu o vermelho do sangue
- Parou de bater o coração!
De natureza vermelho e lasso

Não é mais José
Nem de Drummond
Nem de nós.

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

A arte do tédio

Na aula de matemática me encontrei em outras páginas
- O caderno está sobre a cama, Tédio!

Quando acabam os risos e vão os amigos
- O doce está na geladeira, Tédio!

E vem esse
Que me pede receitas e pratos em linhas retas,
Escritos em linhas tortas,
Viagens em linhas impressas,
Melodias em linhas de viola.

É! O Tédio me proporciona a arte!
Tragam-me os escravos, gregos!

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

Um hiato

Hoje quero, meu Deus,
Ou talvez mais precise
De beijos carinhosos
E um momento para dizer minhas breguices!

quinta-feira, 26 de julho de 2007

Lã, linho e labareda

As mangas das blusas já estão esgarçadas, tortas, de tanto serem puxadas para cobrirem as mãos.
Não compro mais blusas sem bolsos. Nem calças.
Essa noite o termômetro registrou 8 graus e acordei ao meio-dia com as mãos suando dentro das luvas pretas de lã embaixo das cobertas, enroladas uma à outra e, ainda que suando, estavam frias. Estavam tão frias quanto nos últimos seis dias.
Quando não estão cobertas mostram cores pálidas: roxo, branco e rosa. As articulações doem e não consigo mexê-las como antes. Os dedos estralam a qualquer movimento e me sinto incapaz de fazer qualquer coisa minuciosa com toda essa rigidez. Os bordados, tricôs e a cozinha.
Elas amolecem e ficam coradas quando as coloco perto do fogo. Mas parece, ao mesmo tempo, que mil agulhas entram na pele até que os ossos sejam aquecidos. Estão tão desacostumadas ao calor...
Antes que eu não possa mais preparar-lhe o jantar, os doces, os cachecóis e tocar no violão sua musica preferida ou lhe alisar os cabelos. Antes delas esquecerem por completo seu calor, devem voltar a te tocar.
Prometo, elas não estarão frias então.



quinta-feira, 12 de julho de 2007

Romance Murdoch

Uma pedra em cima de cada página.
O encontro com as palavras
É como encontrar um grande
amor que não se vê há tempos:
Sabe que deve abraçá-lo e dizer que
Está lindo (porque sempre está)
mas não tem certeza se deve beijá-lo
Beijá-lo com avidez
Com o amor que é grande há tempos.
Depois, quando toca lábio e lábio,
página e lápis
Sente que deveria tê-lo feito antes.
Mas como poderia?
Encontrar as palavras
Encontrar o ardor
Um romance Iris Murdoch.

quarta-feira, 11 de julho de 2007

Meu menino

É menino que ama
É menino que canta,
rola, pula, senta e pensa –
- Acho que é hora de voltar para casa.

É menino negro, branco
É menino torto, direito
Duas crenças, duas irmãs
Uma mãe, dois primos.

Esse menino é meu filho
Que me aparece nos sonhos!

domingo, 1 de julho de 2007

Dezoito

Ganhei o jogo!
Três mil, quatro mil
doze mil quantias de ouro.
Ganhei a festa!
O bolo, as velas
e na testa
um beijo pra dizer
tudo o que se deve dizer
quando se faz dezoito anos.

sexta-feira, 22 de junho de 2007

Fartura

Meu avô construiu prateleiras
Minha avó encheu-as de comida
Minha mãe enfileirou os livros

Hoje estão todos curvados
O avô, o trabalho
A avó, a família
A mãe, sabedoria

E eu, que fico
Colhendo os frutos
E olhando as prateleiras
Que mesmo vazias
Continuam como todos
Curvadas de tantas vidas
(imagine quantas histórias, filosofias e jantares em família!)

Essa é minha fartura
Minha herança melhor:
Nas latas e vidros,
A falta de fome.
Na outra gula,
A sobra de linhas.