quarta-feira, 14 de abril de 2010

Janeiro


Não quero o dia de hoje
Quero um dia de janeiro
Você deitado
E eu no teu seio
Sol e nós
A iluminar o dia.

A felicidade de um janeiro qualquer
a simplicidade e macieza
de um dia qualquer de janeiro.

domingo, 25 de outubro de 2009

Feche a porta

Não se iluda, companheiro
A solidão não é passiva
Não se manda embora
Não se pede que exista

Ela vem
Quando se quer estar junto
Ela vai
Quando só o que se pede são alguns minutos

Mas veja meu amigo
A solidão não é de todo ruim
Às vezes é nela que sinto o quanto esperam de mim
Que percebo mundos ao meu redor
Entendo frases ditas e não ditas
Crio frases aflitas

Ela por si só não é nada
Depende de você
Estar ou não a desejá-la.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Mais tempo

Não é o tempo
que se passa longe
que conta

É a proporção do tempo
a sentir saudade

sábado, 30 de maio de 2009

Sábado na cuesta


Escorro pelas estradas
Acostamentos e quilômetros
Só caibo em pista dupla
Pois assim que segue:
Falta o materno
Pela serra do mar
O fraterno
Por uma tal Rondon
Falta a paixão
Pela cuesta do sertão

Que a saudade e a alegria
Se fazem de amantes
E aí que está o vento que nos balança
Na ponta do penhasco
E que nos faz agarrar
Com tanta força ao chão
(ou às nuvens)
A cada possuir
A cada dormir
A ir
E vir.

Hoje fiquei.
Acordei na manhã fria do meio do caminho.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Retalho de uma saudade

O amor não é tema
Para as tantas poesias das prateleiras
Do quarto ou da sala

Nem dos sambas
Nem das valsas

O que dá ao poeta fome
É a saudade

Essa sim retalha a alma nas mãos
E as minhas já estão cansadas.


quinta-feira, 14 de maio de 2009

Almoço

Almocei miojo com champignons.

Arrotei ironias a tarde toda...

terça-feira, 12 de maio de 2009

Amar é tanta coisa

Amar é tanta coisa.
Hoje, para mim, é perceber
Que o cheiro da pessoa amada não é só um perfume no frasco
Nem só o suor bruto do corpo
Nem só o desodorante diário
É cheiro do corpo, cheiro da pele
Que fica no nosso corpo depois do amor
Que fica na nossa pele, um pouco de outra pele.

Hoje o amor é isso pra mim
É uma camiseta branca no chão do quarto
Que instintivamente botei na cara
E senti, com todo o ar dos pulmões
O cheiro do homem que amo.
Uma lágrima gorda ficou no parapeito dos olhos
Três batidas rápidas no coração
E a saudade mais bonita.

O amor pra mim está definido por hoje
É um pouco de perfume,
Um desodorante
Um pouco de suor
Pele
Um dia
Uma vida de saudade.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Re-conhecendo

Eu conheci pessoas que falavam sobre poetas
Argumentavam, contrapunham
Conheci também aquelas que sabiam tudo de poesia
Recitavam para tudo que houvesse vida
Conheci, e não me esqueço, alguns poetas
Fiz eu mesma algumas poesias...

Mas gosto mesmo é de conhecer
E reconhecer noutros
Que outrora já tenha conhecido
A beleza de se mostrar a poesia do laço, corrente ou fita
Desses, falo agora
Marcando e pontuando a diferença
Entre ser poeta
E viver poesia.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Um vão no peito

Brigas são vãos
Vão de amor
Vão de compreensão
De alento.
Vão de palavras
De risadas.

Brigas são valas
Abertas no peito
Angustiam
É buraco que lota

Ausência e falta
Das tuas mãos nas minhas mãos
Na minha boca dos teus dentes
No meu peito das tuas palavras
Ou não palavras
- é muito não.

Brigas são vis
São vãs
Vilãs,
De nós.

Quanto vão só num refrão
Quanto vento...

segunda-feira, 2 de março de 2009

Cheiro Verde

É quase tudo como cortar o cheiro verde
É tudo meio assim...
Deve-se lavar bem
Deixar secar
Cortar devagar
Segurando bem

Assim é quase tudo:
Aos poucos se despedaça
Mas deixa sabor e cheiro
Deixa cor

domingo, 1 de março de 2009

Domingo de saudade

A saudade é poema.
O amor é poeta.

E eu humana...
Sou casulo

E casa
De um poeta
que vive
E muitos poemas
que moram.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Avante e acima!

Quando saímos de casa

Não é o endereço que muda
É a direção

É quando nossos pais param de olhar para baixo
E passam a olhar para os lados pra nos ver
Às vezes nos procuram acima...
Nem sempre encontram:
Somos jovens ainda

Mas já tenho lá meu metro e oitenta...

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Uma flor no teu colchão

Pintei na cartolina uma rosa
Uma rosa toda vermelhinha
com cabinho e folha verdes
Fiz sombra nas pétalas
e nervuras na folha

Ao lado da flor
escrevi parte da nossa música
Aquela que conta dos cabelos:
o teu comprido, o meu vermelho
Que diz do desejo:
você em minha cama, eu no teu medo

Fiz o fundo em prata
Coloquei aspas e reticências
Recortei com calma as bordas arredondadas
E foi na parede, com durex
acima do lado que é seu na cama
(nessa que nunca me possuiu)
que o coloquei

Está lá, dizendo de nós
Contando da tua falta

Plantei uma flor
da cor dos meus cabelos
no teu colchão

terça-feira, 2 de setembro de 2008

A mesma Castelo

Do seu dia a dia
Quero saber o que mudou
Das flores
Se o cheiro é diferente
Dos medos
Se eles andam mais presentes

Quero saber o que do seu dia ficou melhor
O que da noite ficou pior
Se dizem que seus olhos brilham
Se indagam onde viu um passarinho

Se suas manias cessaram
Se suas vontades cresceram
Quero mesmo saber o que ficou o mesmo

Porque meu dia anda mais cartoon
Meus passos mais longos
Minhas palavras mais calmas
E menos rudes com os pobres de alma

Minhas mãos andam faceiras
Meus pés dormentes e cansados
Meu sono invadido
Meu corpo bonito

Dos meus desejos
Um só
Da minha casa
Sua ausência
Dessa estrada
A demência

Só quero saber do seu dia a dia
Pra ter certeza que essa loucura não é só minha.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Nesse samba

Meu samba é ritmado:
segue lento para te encantar
segue o pandeiro para te chamar
entra a cuíca para eu rebolar
bate o tambor pra teu peito reclamar
entra a voz, enfim, para te contar
que se eu danço assim
é só pra te fazer sambar.

domingo, 10 de agosto de 2008

Lua cheia

Eu sou a lua
E você o mar
E nas minhas rotações
Te levo comigo
E te deixo tontinho, tontinho.

sábado, 9 de agosto de 2008

Querer

Quero dormir observada.
Quero fechar meus olhos tendo a certeza de que os teus seguem o caminho das suas mãos.
Quero mais uma vez a ponta dos dedos leves deslizando pela curva da minha pélvis.
Tua palma comprimindo minha lombar. Que sempre sabes, não sei como, ao doer.
Quero, antes de dormir, tua boca desesperada pelo meu ombro, me fazendo soltar um largo suspiro. E tua velha mania de perguntar “que foi?”. E meu jeito dissimulado de responder “nada”. E não era nada... mas te sinto curioso e gosto de te deixar assim.
Quero estar exausta para dormir. Que a chuva está forte lá fora e a cada trovão se vai um pouco do sono. Traz a solidão.
Quero nossa exaustão. Você descansando em meu peito e teu suor vazando pelas minhas laterais. E o leve arrepio que segue as gotas mornas...
Essa noite sou repleta de quereres. Desejo que me mata a fome.
Quero mais uma vez estar exausta do gozo. E dormir observada.
Não posso mais suspirar sem você me ouvir.
Deita aqui atrás de mim. Ama como sempre amou. E me olha.

sábado, 28 de junho de 2008

Dezenove ao forno

E é dia de meus anos
Deixo a janela aberta
Para o calor e o sol
Que o carinho doce de quem amo
Trouxe até aqui

Hoje o dia amanheceu quente
E o sol veio trazer conforto
A casa ainda é só
De outros dias frios
Que não hoje

Ardo de saudade e amor
E até a lágrima é quente

No forno vou botar um bolo
E uma torta com queijo
Pra juntar os pequenos amigos
Que por aqui encontrei

Ainda não é verdadeiro
Nem mesmo há cumplicidade
Mas se o dia florescer,
É por tudo o resto que vivemos
E aos poucos as almas se cruzam

Ainda tem saudade
Mas a lágrima é quente

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Estar em casa

Estar em casa é voltar a tudo
Voltar ao quarto antigo que guarda tudo
É saber onde fica tudo na cidade
E poder chegar até lá sem me perder mais de três vezes.

É saberem da tua história
E dizer aos amigos da falta
E contar o dia que não viram
Ouvir o dia que não viveu.

Ter inveja de algumas idas
Ter mais inveja dos que vieram
Sem você estar
Dos que abraçaram
Sem você estar
Dos que encontraram novos amores
Sem você cantar.

É também matar a saudade
Das bobagens do dia a dia
Das flores do jardim
Da gata pedindo comida.

É descobrir um tapete novo
Um pinheiro quase morto
Um pinheiro renascendo
A grama crescendo.

É ficar a pensar
Na hora de ir embora
De achar a plataforma
E dizer tchau
Sem querer dizer
Sem querer dizer
Sem querer dizer

Sem querer saber
Que a vida lá também é boa
Que a saudade também é boa
E pra entender
(sem precisar dizer)
Que um dia
Eu vou de vez
Mas não desta vez

Show

E fomos vê-la cantar
E voltamos todos tão lotados, que mal cabíamos no carro
E eu cheia de tudo o que existe
Entre o céu e o mar.